Opinião: Band dá exemplo de resiliência e coragem na TV

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COLUNA


RICARDO FELTRIN




 



Zeca Camargo e Mariana Godoy, as novas contratações da valente Band


 


Imagem: repdoução/Instagram



Ricardo Feltrin


Colunista do parou


05/07/2020 00h09


Como todos sabem a pandemia de coronavírus virou a vida das pessoas e a economia de cabeça para baixo. Ela esvaziou o bolso tanto de pessoas físicas como jurídicas.


Na TV aberta não foi diferente. Foi um dos setores mais impactados pelo vírus mortal.


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É uma crise sem precedentes: demissões em massa ou funcionários e artistas com salários reduzidos, e programas foram adiados ou extintos.


Tudo pela impossibilidade de se trabalhar na quarentena e, lógico, a consequente falta de dinheiro.


Em algumas emissoras as receitas publicitárias caíram até 70%


Apesar disso tudo, uma emissora que já vinha lutando para ficar com a cabeça fora d´água nos últimos anos, mesmo antes da pandemia, tem tomado nas últimas semanas decisões surpreendentes —e até mesmo espantosas— para a situação atual: a Band.


Enquanto a Globo faz demissões às "pencas", o SBT só tem a oferecer reprises e um "subjornalismo", a Record está paralisada e sem novidades, a sofrida e endividada Band vai à luta e nada contra a corrente.


Na semana passada a emissora da família Saad assumiu que fracassou com a "nova" versão de um programa com pouco mais de 30 dias: tirou do ar o "Aqui na Band" no formato, digamos, Lacombe-direitista.


Mais: fez duas contratações de peso e qualidade ao trazer Mariana Godoy (ex-RedeTV) e Zeca Camargo (ex-Globo) e para o Morumbi.


As mudanças e novidades


Mariana terá participação multiplataformas na casa: será estrela da TV aberta (vai comandar algum programa, mas não está nada decidido ainda), terá outro na TV paga e também vai brilhar no sistema de rádio do grupo.


Já Zeca foi contratado na última quinta e terá a função de diretor de Produção e formulará novas atrações para outros horários. Aceitou o convite de seu novo chefe, Antonio Zimmerle —também um ex-global.


A movimentação da Band pegou todo mundo de surpresa.


Afinal, ninguém diria que a combalida emissora teria forças —e dinheiro— para uma manobra dessas num momento como o atual. Teve.


Vamos relembrar?


Uma empresa no vermelho


A Band veio enfrentando nas últimas décadas uma situação de degradação contábil.


Chegou ao ponto de perder o controle de suas dívidas e foi até considerada por agências de avaliação como uma empresa já à beira da insolvência.


Para piorar, uma disputa entre os acionistas (a família Saad), além de terceiros que também entraram na história, acabou levando a Band a uma situação periclitante em relação a seu próprio futuro.


A programação também sofreu pesadas baixas. No ano passado morreu sua maior estrela, o jornalista e âncora Ricardo Boechat.


Antes, ela já havia perdido outro "filho ilustre": o sagrado futebolzinho das quartas e domingos, no qual fazia parceria com a Globo havia décadas.


Por falta de pagamentos, a Globo cancelou o acordo e tirou os jogos da Band. Eles eram a maior audiência da emissora.


10, 9, 8, 7, 6, 5, 4 ,3, 2, 1?


Pois a "cascuda" Band manteve a 4ª colocação no Ibope no país e levantou dessa situação de nocaute antes do gongo.


Levantou e voltou a brigar: nos últimos dois anos cortou gastos, enxugou estruturas, demitiu e acabou com os altos salários.


Mudou sua direção artística, readaptou a programação. E, o mais importante: mudou sua atitude diante das próprias dívidas. Finalmente olhou para seu destino como empresa.


Uma das grandes credoras da Band era a Globo, a quem eram devidos cerca de R$ 135 milhões.


Pois até o final do ano passado a Band já havia pago quase 95% dessa dívida e caminhava para uma situação que, se não fosse já 100% solvente em 2020, caminhava para isso.


Ninguém acreditava que isso ainda seria possível.


Porém, ainda tinha um vírus no meio do caminho...


A Band foi nocauteada uma segunda vez —agora pelo vírus que parou a economia.


No entanto, se ergueu novamente e está no ringue. É impressionante.


Claro que, além dessa força de vontade e de se acertar, a Band tem outros pilares sólidos.


A saber:


- um jornalismo extremamente qualificado, provavelmente o segundo melhor do país, só atrás do da Globo (falo mais de tamanho do que de qualidade, bom avisar);


- um sistema de rádio de altíssimo gabarito, bom gosto e valor comercial;


- olho no futuro: o Grupo Band não foi tolo como maioria de seus concorrentes e se tornou presente na TV paga; além da competente BandNews TV e do diferenciado BandSports, o grupo ainda tem um dos melhores canais da TV paga no Brasil: o fabuloso Arte1.


Vale acrescentar ainda que nos últimos meses a emissora fechou um acordo de parceria com os gigantes China Media Group e Grupo Discovery.


Sobre o futuro


Sim, verdade, ninguém pode prever o futuro nem mesmo num momento normal, como fazê-lo então em uma situação de crise sanitária como a atual?


Sim, o ibope da Band ainda é pequeno diante do tamanho, história e simbolismo da emissora para o país; no entanto, a perda do futebol foi um impacto e tanto.


Sim, ainda há enormes dívidas, mas a direção parece empenhada em resolver isso de forma definitiva; não há outra saída.


Sim, ainda é preciso pensar estrategicamente mais no streaming e em outras tecnologias.


Sim, ainda falta resolver o problema crônico da disputa familiar que "empaca" a TV e o restante do grupo rumo ao futuro.


Porém, a atitude da Band em plena pandemia, a decisão de mudar, de se reformular, de afastar alguns nomes, de contratar outros (qualificados) a torna ainda mais admirável e respeitável como TV e como pessoa jurídica.


Repito: enquanto a Globo demite em massa, o SBT declina a olhos vistos, a Record fica sem ação e a RedeTV está mais preocupada com sorteios do que em grade de programação, a Band está de pé e lutando.


Dá um exemplo incrível de coragem, força, seriedade, de resiliência corporativa e, principalmente, de respeito a seu fiel telespectador.


Em plena pandemia mortal, a Band prova que está viva.


 


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